Ir para página principal

O que cremos

Eleições, um passo

As Eleições marcam o início de um novo ciclo, resultado da vontade dos cidadãos. É, nesse sentido, um passo novo, mas não um “passe de mágica”. A sociedade é desafiada a compreender: há um longo caminho a ser construído, exigindo o empenho e a contribuição de cada cidadão. Por isso, não se pode acreditar na solução imediata dos problemas, simplesmente porque determinado candidato venceu o pleito. O dia seguinte às Eleições não é um “conto de fadas”. Para vencer seus muitos desafios, o povo brasileiro necessita buscar respostas alicerçadas em um profundo humanismo, em princípios e valores fundamentais conforme exige o sistema democrático.

É ilusória a possibilidade de se conquistar o bem comum fora dos trilhos da democracia, por meio de escolhas unilaterais ou imposições. A participação cidadã, além de possibilitar a escolha dos representantes do povo nas eleições, assegura aos governados a prerrogativa de acompanhar e direcionar a atuação dos próprios governantes. Assim, o sistema democrático oferece mecanismos para que o poder do Estado não seja apropriado por interesses particulares ou objetivos ideológicos.

A partir das eleições é necessário renovar a compreensão de que uma autêntica democracia requer um Estado regido pelo Direito, sobre a base de uma rica concepção do ser humano, conforme ensina a Doutrina Social da Igreja Católica. Os eleitos, acima de tudo, têm o compromisso de defender a democracia. Essa defesa vai além do mero respeito formal a determinadas regras. É preciso aceitar, com convicção, os valores que inspiram os procedimentos democráticos: o zelo pelos direitos e pela dignidade humana, a busca do bem comum.

Sem o consenso sobre a importância desses valores, a democracia perde a sua estabilidade. Por isso, é perigoso quando os representantes do povo, nos três poderes, navegam no leito do relativismo ético. Esse relativismo leva à manipulação de valores, que passam a ser negociados, em vez de serem compreendidos como critérios objetivos a serem respeitados. Consequentemente, o exercício da representatividade deixa de ser eficaz, pois os poderes tornam-se caminho para alcançar objetivos pouco nobres. Uma democracia sem princípios converte-se, facilmente, em totalitarismo, aberto ou dissimulado.

Para se preservar o regime democrático é preciso agir em conformidade com a lei moral, que é soberana e sustenta o indispensável equilíbrio entre os poderes. Nesse horizonte, espera-se competência humanística daqueles que exercem o poder. Assim se legitima a autoridade perante o povo e se conquista credibilidade. Deve ser compromisso primordial dos eleitos promover a boa convivência civil, sendo sempre sensíveis às dores do povo. Para exercer essa tarefa, não podem subestimar a dimensão moral no exercício do mandato político.

Lamentavelmente, são muitas as deformações do sistema democrático – a corrupção política, a traição de princípios morais e a inaceitável negociação da justiça social. Para corrigir esses descompassos, os partidos políticos devem ser capazes de favorecer a participação cidadã, consolidando o entendimento da responsabilidade de todos pelos rumos da sociedade em um sistema democrático. É exigido qualificado desempenho dos que ocupam cargos nos três poderes, mas também é indispensável a colaboração cidadã de cada pessoa na definição dos rumos do país.  A cidadania brasileira está desafiada a conquistar novos modos de agir. A primeira etapa desse desafio é o voto consciente, com lucidez. Esse voto qualificado contempla também o entendimento de que as eleições não têm força mágica, com o poder imediato de tudo mudar, mas constituem um importante passo, na tarefa de se percorrer um longo caminho.

 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

____________________________________________________________________________________________

Brasil, escolha a vida

Deve ecoar forte no coração da sociedade brasileira o grito e a convocação para que todos façam a escolha pela vida. É esta reação que indicará, aos legisladores e à Corte Suprema, que não se pode errar, permitindo a descriminalização do aborto. Omitir-se diante dessa convocação é empurrar a cidadania brasileira para o caos da permissividade e da hegemonia de grupos radicais. Por isso, todos são chamados a dizer “não ao aborto”. A mobilização na defesa da vida deve envolver cada cidadão e cidadã, para que a força dessa união pelo direito de viver recomponha o tecido ético e moral da sociedade. O Poder Judiciário deve ter cuidado ao interpretar a legislação.  Os representantes do povo – deputados e senadores – devem estar conscientes da tarefa de proteger a vida. E a população precisa permanecer atenta: neste ano eleitoral, não confiar seu voto em quem é pró-aborto.

Agir com permissividade diante de situações diversas que ameaçam a vida, nas suas mais diferentes etapas, é se distanciar da oportunidade de recompor o caminho do Brasil, edificando uma sociedade mais séria, com dinâmicas culturais humanizadas, condizentes com o patrimônio religioso e cultural do país, de muitas tradições.  Escolher a vida é o remédio que a nação precisa tomar, para que sejam corrigidos gravíssimos descompassos, a exemplo da endêmica corrupção que contamina diferentes lugares. A Bíblia apresenta importante lição nesse sentido.  No Antigo Testamento, a partir da voz de Moisés, o povo, liberto da escravidão e rumo à terra prometida, ouviu uma convocação de Deus: “Escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e teus descendentes”. Naquela época, essa ordem reabriu o caminho da recomposição de uma sociedade. Hoje, essa ordem de Deus precisa ser acolhida pelo povo brasileiro.

Espera-se que as autoridades não confundam os anseios de segmentos sérios da sociedade, de grande parte da população, com o que é o desejo de um partido, isto é, de uma parte, sujeita às limitações do ambiente partidário. Mesmo diante de tantas conturbações que revelam fragilidades, ainda se acredita que a Suprema Corte e as outras instâncias do Poder não autorizarão a prática do aborto.  São abundantes os elementos conceituais, éticos e antropológicos que permitem enxergar uma verdade: posicionar-se favoravelmente ao aborto é o mesmo que concordar com a prática de um crime.

Importante lembrar que o debate sobre a legalização do aborto ocorre no Supremo Tribunal Federal (STF) porque não conseguiram fazer tramitar essa proposta no Congresso Nacional – a instituição que tem o poder de legislar. Sabe-se que só uma Assembleia Nacional Constituinte pode modificar a Constituição nos seus preceitos fundamentais. E a Constituição Federal diz que a vida é inviolável. O aborto, portanto, é crime.

A sociedade brasileira, pela força da sua voz, deve exigir que a interpretação de suas leis não seja pautada por interesses pequenos de grupos minoritários, com posicionamentos distantes da verdade e do bem.  A apreensão deste momento, quando está em discussão a possibilidade de se permitir o aborto, deve converter-se em mobilização capaz de retirar a sociedade do lamaçal em que se encontra, formado por situações diversas que tem como base o desrespeito ao direito de viver.

Há um princípio moral que é inegociável, devendo orientar todas as normas e condutas: a vida é dom sagrado e inviolável. Precisa ser defendida em todas as suas etapas – da fecundação até o declínio com a morte natural. Cientistas de diferentes campos do saber, profissionais sérios da área médica, perspectivas religiosas, filosóficas e antropológicas apresentam argumentos convincentes nesse sentido.  Nenhuma liberdade individual ou ideologia, de grupos ou partidos, pode relativizar a essencialidade deste princípio. Sua relativização leva à instalação hegemônica de um cenário desolador.  Por isso, unam-se as vozes para dizer não ao aborto. Brasil, escolha a vida!

 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

_____________________________________________________________________________________________

Lições, Brasil

 

Os acontecimentos da vida, que é uma escola, são lições. Por isso, é muito comum ouvir o dito popular “vivendo e aprendendo”. As lições são muitas e o desafio maior é aprendê-las. Só as aprende quem se coloca no lugar de aprendiz. Há quem se arvora em mestre dos outros e perde a capacidade para aprender, pois acredita que já sabe de tudo. Aprende mais quem está disposto a escutar. A incompetência para o aprendizado atinge seu patamar avassalador quando incide no tecido cultural da sociedade, revelando um fenômeno: muitos se julgam na condição de ensinar, e acreditam que não precisam mais aprender.

Consequentemente, há o travamento das dinâmicas que promovem as evoluções na compreensão. Falta lucidez para a solução dos problemas e a sociedade permanece ameaçada pelos extremismos. Nesse contexto, convive-se ainda com desmandos e corrupção. Falta vergonha aos que se permitem usufruir de privilégios, que alimentam exclusões e discriminações. Eis a névoa que confunde as feições e paira sobre a sociedade brasileira, obscurecendo a verdade e tornando a mentira a protagonista da história. Tudo vale para defender interesses particulares, até mesmo ações inconsequentes.

Não deveria ser assim, pois a sociedade brasileira, em seus mais de cinco séculos de história, já deveria ter assimilado muitas lições. Mas a incapacidade para aprender pode explicar o desenvolvimento pífio do país. Se as lições da história fossem aprendidas, a classe política brasileira poderia, agora, ajudar o Brasil a sair do caos dos desencontros e aproveitar melhor as oportunidades deste tempo, valendo-se das riquezas ambientais e culturais da nação. Ao invés disso, vê-se um pavoroso “bate-cabeça” entre os que ocupam os lugares de lideranças sem serem líderes. A consequência é a disseminação de um jeito de ser que contamina também os espaços políticos. A demagogia torna-se a tônica principal, contracenando com a desconfiança e os ataques mútuos.

Os posicionamentos polarizados, quando se transformam em hostilidades, ferem visceralmente o andamento da vida do povo, enfraquecem as indispensáveis alianças, obscurecem os diálogos e instalam o caos. Há uma completa perda do sentido de limite. A insistência nos equívocos e as miopias que impedem enxergar as soluções agravam os problemas e multiplicam os pesos sobre os ombros de todos. Assim, o cidadão se distancia das lições que o possibilitariam ajudar na construção de um país melhor. Passa-se a enxergar apenas a própria causa, a considerar como único e intocável o discurso que se defende. O resultado é a gravíssima perda da sensibilidade para se abrir a uma inadiável dinâmica de conversão, capaz de inspirar atitudes com força de mudanças.

Sem os aprendizados necessários, contenta-se apenas com o conforto institucional do lugar ocupado e seus privilégios – a incapacidade para se colocar no lugar do outro, a quem se deveria servir e ajudar. Para mudar essa postura, devem-se habilitar os olhos para enxergar além dos próprios interesses e comodidades. Admitir que o exercício qualificado da cidadania não pode conviver com os conchavos, os privilégios e a busca por vantagens a partir da corrupção.

A sociedade brasileira clama precisada de um novo ciclo de aprendizagens das muitas lições que estão inseridas em sua história. As instituições e segmentos da sociedade carecem de gestos corajosos para aprender, por meio do diálogo, a cuidar do bem comum a todo custo. A transformação do país, para conseguir sair dos limites perigosos a que chegou, exige de todos um gesto de conversão, bem concreto. É preciso modificar funcionamentos para recuperar a credibilidade perdida, importante para o urgente processo de mudança: um tempo novo para o aprendizado das lições, Brasil!

 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

____________________________________________________________________________________________

Vivenciar o amor de Cristo Ressuscitado

 

Com a ressurreição do Senhor somos convocados a descobrir o amor misericordioso que Deus tem para conosco. Um amor tamanho que não tem medidas e é vivendo esse amor que vamos ser capazes de clarear as várias imagens distorcidas de Deus que carregamos na nossa caminhada de fé. Vamos jogar fora as imagens caricaturadas de um Deus que é vingativo, que está sempre a nos cobrar e que nos ama na medida do no nosso mérito pessoal. Com a ressurreição do Senhor só nos resta uma possibilidade: enxergar o amor misericordioso de Deus e amarmos a todos com esse amor que Deus nos ama: Amor incondicional.

Realizando as leituras do Evangelho, nele percebemos grandes exigências para viver esse amor, mas trata-se de exigências a serem cumpridas, não para merecer o amor de Deus; Ele já nos deu seu amor, mas para experimentar esse amor em nossa vida e ajudar também aos irmãos e irmãs viver esse amor.

A graça de Deus simbolizada numa nova vida, ressuscitada, torna-se motivação para enfrentarmos os sofrimentos nessa vida. Deus nos ajuda para que possamos ver nascer um novo dia e nele somos conduzidos para a realização de uma vida plena, mas os passos somos nós que temos de dar.

Citando o Papa Francisco em sua “Bula de proclamação do jubileu extraordinário da misericórdia” ele diz: “A misericórdia do Pai tornou-se viva, visível e atingiu o clímax em Jesus de Nazaré”. O Pai, “rico em misericórdia” (Ef 2,4), depois de ter revelado seu nome a Moisés como ‘Deus misericordioso e clemente, lento na ira, cheio de bondade e fidelidade’ (Ex 34,6), não cessou de dar a conhecer, de vários modos e em muitos momentos da história, a sua natureza divina. Na plenitude do tempo (Gl 4,4), quando tudo estava pronto segundo seu plano de salvação, mandou o seu Filho, nascido da Virgem Maria, para nos revelar o seu imenso amor. Quem o vê, vê o Pai (cf. Jo 14,9). Jesus, com a sua palavra, os seus gestos e toda a sua pessoa, revela a misericórdia de Deus.

Na morte e ressurreição de Jesus Cristo, Deus torna evidente esse seu amor que chega a ponto de destruir o pecado dos homens. Jesus, o Cristo ressuscitado, nos leva à reconciliação com Deus por meio do mistério pascal e da mediação da Igreja. Assim, Deus está sempre disponível para o perdão e Jesus é o caminho que nos leva até ele. Para percorrer esse caminho de salvação, deitemos o nosso olhar nas bem aventuranças (Mt, 5,3-12; Lc 6,20-23 e lá encontraremos a realização plena dos nossos anseios).

 

Olhemos para a parábola dos talentos (cf. Mt 25,14-29, do mordono (cf. Mt 24,45-47; 25,31-46) e Lc 10,25-37) e lá está a salvação como recompensa pela prática da solidariedade e do amor. Também podemos encontrar na caminhada formas de superação das limitações do sofrimento olhando para as parábolas do perdão e da misericórdia (cf. Mt 1823-35; 20,1-15; 21,28-32; Lc 15,1-32). Este período pascal nos convoca para um momento maior de meditação e reflexão sobre esse amor misericordioso de Deus. Juntos, todos podem percorrer esse caminho de realizações para a vida plena.

Neuza Silveira de Souza
Coordenadora do Secretariado
Arquidiocesano Bíblico-Catequético de BH

____________________________________________________________________________________________ 

Ano Nacional do Laicato: possibilidades ou desafios?

 

O grande chamamento é para que cada diocese no país elabore um Plano de Formação para o Laicato que contemple formação básica para todas as mulheres e homens que exerçam um serviço na Igreja ou na sociedade; formação teológica-pastoral para as lideranças; e formações específicas, como Escolas de Fé e Política para Cristãos Leigos e Leigas que atuem em Conselhos, Grupos de Acompanhamento ao Legislativo, movimentos sociais e partidos político, escreve Daniel Seidel,  50 anos, mestre em Ciência Política pela UnB, membro da CJP-DF e da Comissão Brasileira Justiça e Paz e integra a Comissão Especial da CNBB para o Ano do Laicato.


Eis o artigo.

O Concílio não olha os leigos como se fossem membros de segunda categoria, a serviço da hierarquia e simples executores de ordens provenientes do alto, mas como discípulos de Cristo que, através do Batismo e sua inserção no mundo, são chamados a animar todo ambiente, atividade e relação humana segundo o espírito do Evangelho.... Ninguém melhor que os leigos pode desempenhar a tarefa essencial de inscrever a lei divina na vida da cidade terrena. (Papa Francisco na mensagem aos participantes da jornada de estudos sobre a Vocação e missão dos leigos, em 12/11/2015).

A CNBB promove no próximo domingo, dia 26 de novembro, a abertura do Ano Nacional do Laicato, em todas as Dioceses do Brasil, fruto da decisão tomada na Assembleia Geral Ordinária dos Bispos, realizada em abril de 2016.

O Ano Nacional do Laicato objetiva valorizar a presença e organização dos Cristãos Leigos e Leigas na Igreja e na sociedade, aprofundando sua identidade e missão, espiritualidade e vocação, estimulando o testemunho de Jesus Cristo e seu reino na sociedade. Tem como tema: Cristãos Leigos e Leigas, sujeitos na Igreja em saída, a serviço do Reino. E como Lema: Sal da Terra e Luz do Mundo.

Segundo dom Severino Clasen, bispo de Caçador (SC), presidente da Comissão Episcopal Especial para o Ano do Laicato, espera-se que este ano traga um legado para a Igreja missionária autêntica, com maior entusiasmo dos cristãos leigos e leigas na vida eclesial e também na busca da transformação da sociedade. Eu acredito que se conseguirmos estimular a participação e presença efetiva dos cristãos leigos na sociedade provocando que aconteça a justiça e a paz, será um grande legado, disse o bispo.

Para tanto, vislumbra-se como legados dessa iniciativa, por parte dos cristãos leigos e leigas: a participação efetiva nos conselhos de políticas públicas; criação e fortalecimento de iniciativas de acompanhamento dos poderes legislativos – municipais, estaduais e federal; mobilização para realização da Auditoria da Dívida Pública brasileira, visando aplicação dos recursos do Orçamento Federal em políticas públicas direcionadas aos mais empobrecidos e excluídos da sociedade.

Neste sentido, importa destacar o pronunciamento do Papa Francisco na Assembleia do Pontifício Conselho para os Leigos, em 17/06/2016, quando propôs, como horizonte de referência para o imediato futuro, o seguinte binômio: Igreja em saída e laicato em saída, lançando o olhar para os que se encontram distantes do nosso mundo, às tantas famílias em dificuldade e necessitadas de misericórdia, aos campos de apostolado ainda inexplorados, e aos numerosos leigos, que devem ser envolvidos e valorizados pelas instituições eclesiais. Na ocasião, o Santo Padre concluiu seu discurso dizendo: precisamos de leigos bem formados, animados pela fé cristã, que “sujem suas mãos” e não tenham medo de errar, mas que prossigam adiante. Precisamos de leigos com visão do futuro e não fechados nas pequenezas da vida, mas experientes e com novas visões apostólicas.

Essa proposta de enfoque na ação pastoral e social resgata a concepção de uma Igreja Povo de Deus, com inspiração no Concílio Vaticano II e a coloca diante dos desafios da missão atual que Papa Francisco tão bem traduziu de uma Igreja em Saída na exortação Alegria do Evangelho e na encíclica Laudato Si, sobre o cuidado com a Casa Comum.

É um necessário resgate da graça batismal em sua tripla missão: profética, real e sacerdotal. Significa uma relação de maior maturidade e autonomia dos batizados e batizadas não ordenadas frente ao desafio de fermentar o Reinado de Deus numa sociedade que despreza a vida, tanto humana como do conjunto da Natureza, em função do dinheiro e do lucro.

É também um desafio resgatar o protagonismo dos Cristãos Leigos e Leigas numa Igreja paroquial concentrada no poder hierárquico, na maioria dos casos, clerical. É um forte apelo à conversão. O desafio é resgatar o protagonismo das CEBs, com efetiva presença nas periferias das cidades e nas lutas empreendidas nos assentamentos, territórios dos Povos Indígenas e Comunidades tradicionais. Outro campo exigente são as Pastorais Sociais, capazes de responder às demandas, principalmente urbanas.

Dentre as proposições de legado do Ano Nacional do Laicato, a mais desafiadora e que exigirá o engajamento de todas as pessoas de boa vontade, é a realização da Auditoria da Dívida Pública do país. Prevista nas Disposições Transitórias da Constituição Federal de 1988, é tema interditado pela grande mídia brasileira e atinge o cerne da desigualdade social, visto que sangra quase metade do Orçamento Público federal para rolar uma dívida que enriquece os bancos e impõe pesadas restrições ao financiamento das políticas sociais.

Finalmente, os desafios não terminam por aí, o grande chamamento é para que cada diocese no país elabore um Plano de Formação para o Laicato que contemple formação básica para todas as mulheres e homens que exerçam um serviço na Igreja ou na sociedade; formação teológica-pastoral para as lideranças; e formações específicas, como Escolas de Fé e Política para Cristãos Leigos e Leigas que atuem em Conselhos, Grupos de Acompanhamento ao Legislativo, movimentos sociais e partidos políticos.

 

É uma agenda atraente para atuação desde a base, com a experiência e motivação para realizar novas aprendizagens e sínteses e, assim, provocar o protagonismo dos Cristãos Leigos e Leigas, apoiados pelos ministérios existentes na Igreja e seguir na mobilização da sociedade brasileira para o resgate da democracia rompida em 2016, apontando para uma nova utopia inspirada no Bem-Viver: é urgente construir unidade na construção de um novo Projeto Popular para o Brasil.

____________________________________________________________________________________________

Diante da morte, conservar a chama da fé

 

Cidade do Vaticano (RV) – Na audiência geral desta semana, o Papa Francisco deu continuidade ao ciclo de catequeses que vem fazendo sobre a esperança cristã, refletindo sobre o tema ‘Felizes os mortos que morrem no Senhor’.

Cerca de 30 mil pessoas participaram do encontro na Praça São Pedro. Deficientes visuais, enfermos e muitos peregrinos idosos vieram de várias cidades da Itália, tomando parte do ‘Dia dos avós’.

O Papa saudou especialmente os grupos vindos do Brasil, em particular os fiéis da Arquidiocese de Natal com o bispo, Dom Jaime, e os da Arquidiocese de Londrina, convidando todos a permanecer fiéis a Cristo Jesus, como os Protomártires do Brasil.

“O Espírito Santo vos ilumine para poderdes levar a Bênção de Deus a todos os homens. A Virgem Mãe vele sobre o vosso caminho e vos proteja”.

“Hoje eu gostaria de fazer uma relação entre a esperança cristã e a realidade da morte, uma realidade que a nossa civilização moderna tende cada vez mais a cancelar. Assim, quando chega a morte de alguém que nos é querido, ou a nossa própria morte, nos encontramos despreparados”, disse o Papa, iniciando a catequese.

Francisco mencionou o trecho do Evangelho de João, quando a Marta, que chora pela morte de seu irmão Lázaro, Jesus assegura: “Teu irmão ressuscitará, pois quem crê em Mim, mesmo que tenha morrido, viverá”. “Eu não sou a morte; Eu sou a ressurreição e a vida. Crês nisto?” – pergunta ele a Marta.

O Papa lembrou que Jesus faz a mesma pergunta a cada um de nós, sempre que a morte dilacera o tecido da vida e dos afetos. Com a morte, a nossa existência toca o ápice, tendo diante de nós a vertente da fé ou o precipício do nada.

A filha de Jairo e a dor do pai

O desafio que então nos lança Jesus é continuar a crer. Assim fez Ele com Jairo, a quem acabam de comunicar que a sua filha morreu, não há mais nada a fazer… de que serve incomodar o Mestre?! Jesus ouve e apressa-se a tranquilizar Jairo: “Não tenhas receio; crê somente!”.

O Senhor sabe que aquele pai é tentado a deixar-se cair na angústia e no desespero, e recomenda-lhe que conserve acesa a chamazinha que arde no seu coração: a fé.

“Não tenhas medo! Continua a manter acesa a chama da fé!” E valeu? Sim; Jesus, chegando na casa dele, ressuscita a menina e entrega-a viva aos pais. No caso de Lázaro, ressuscita-o quatro dias depois de ele ter morrido; já estava sepultado. E Jesus manda-o sair do túmulo”.

Concluindo, o Papa afirmou que a esperança cristã se apoia e se alimenta desta posição que Jesus assume contra a morte. Por nós, nada podemos; ficamos indefesos perante o mistério da morte.

 

“Não tenhas receio – diz-nos Jesus –; crê somente!”. A graça de que necessitamos naquele momento – uma graça imensa! – é conservar acesa no coração a chama da fé. Porque Jesus há de vir, tomar-nos-á pela mão, como fez com a filha de Jairo, e ordenar-nos-á: “Levanta-te, ressuscita”.

 

(Fonte: http://arquidiocesebh.org.br/para-sua-fe/espiritualidade/catequese-do-papa-francisco/46524/)

____________________________________________________________________________________________ 

Não sejas incrédulo!

 

O apelo aos cristãos é para que conservem e perseverem na genuína fé em Jesus Cristo.

 

Por Tânia da Silva Mayer*

“Não sejas incrédulo, acredita” é a advertência que o Senhor Ressuscitado faz a Tomé, duvidoso do testemunho da comunidade que havia estado com o Senhor e recebido dele o dom do Espírito. Ao testemunho da comunidade de fé reunida, “Vimos o Senhor”, Tomé é categórico: “Se não vir em suas mãos o sinal dos pregos, e não puser o meu dedo no lugar dos pregos, e não introduzir a minha mão no seu lado, não acreditarei!” (Jo 20,25). Mas ao encontrar-se com o Ressuscitado, ele é advertido de que são felizes as pessoas que acreditam sem uma comprovação material, isto é, aquelas que creem através dos tempos, sem ter convivido e podido ver as ações e ouvir as palavras de Jesus. Felizes são os que creem por causa do testemunho de homens e mulheres de fé de todas as épocas, testemunho de que o Senhor é vivo entre nós e que a sua Vida Nova nos inclui a todos e todas.

Isto é o que recordamos ontem, ao celebrarmos o Mistério Pascal de Jesus na esteira da experiência de um de seus seguidores, Tomé. Mas esta semana começou com um louvor à fé, ou como uma exortação à fé. O apelo aos cristãos e as cristãs é para que conservem e perseverem na genuína fé em Jesus Cristo, o Crucificado-Ressuscitado. Precisamente, a liturgia ofereceu aos fiéis a possibilidade de revisitar, no último domingo, as narrativas onde Pedro e Paulo são qualificados testemunhas de uma fé com pretensões universais. É da boca de Pedro que sai uma profissão esclarecida a respeito da pessoa de Jesus Cristo, contrária àquela das multidões e contrária a de alguns dos discípulos de Jesus. À pergunta do Mestre, Pedro afirma sem titubear, “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo!” (Mt 16,16). É por isso que ele se tornou a pedra fundamental, ao redor da qual a comunidade cristã pode retornar sempre e outra vez ao específico da genuína fé que a mantém unida ao Senhor.

Por sua vez, Paulo é outro guardador da fé que, em vias de completar a corrida da vida e alcançar a glória prometida aos fiéis seguidores, compreende o serviço prestado por ele na divulgação do Evangelho entre às Gentes, os pagãos. No entanto, também sabe que tudo o que fez foi graças ao auxílio de Deus e à força dele. Por isso, ao redor de Paulo, a comunidade cristã se reencontra com a paixão pelo anúncio do Evangelho, conclamando pessoas e povos ao seguimento daquele que nos oferece a libertação verdadeira, porque é quem nos abre o horizonte de uma vida plena. Desse modo, os cristãos e as cristãs são convidados à constância da fé no Crucificado-Ressuscitado, não só pelas palavras de Pedro e Paulo, mas também pelo testemunho de vida que ofereceram à comunidade cristã, ambos mártires pelo Evangelho, cujo a tradição preservou ao longo das épocas.

Na liturgia de hoje continuamos sendo provocados em nossa fé em Jesus. Em alto mar, os discípulos são confrontados por uma tempestade que revolta as águas e os apavora de medo. A Jesus que dorme, acordam-no e pedem: “Senhor, salva-nos, nós perecemos!” (Mt 8,25), ao que Jesus responde em uma pergunta-denúncia: “Por que este medo, gente de pouca fé?”. Desta cena, aprendemos que mesmo na companhia de Jesus, no seguimento a ele haveremos de passar por muitas dificuldades. Muitos serão os obstáculos e os desafios que haveremos de superar. A ideia de uma paz e tranquilidade no seguimento de Jesus é falsa. Os discípulos e as discípulas não estão isentos às perseguições e sofrimentos, mas devem insistir na fé, sabedores de que Jesus Cristo segue ao lado, como irmão e amigo.

Como se pode ver, a fé dos seguidores e seguidoras de Jesus precisa ser uma fé esclarecida, pois só assim superará a fraqueza diante das primeiras dificuldades e a incredulidade, quanto mais distantes ficamos do Nazareno, de suas obras e palavras. No processo de esclarecimento da fé, a comunidade dos discípulos e das discípulas participa de maneira fundamental: ela não só faz memória da pessoa de Jesus por meio das palavras e assertivas que afirmam quem ele é, como, também, por meio do testemunho que oferece sobre ele, através da sua postura no mundo e diante das pessoas, sobretudo as que se encontram à margem do caminho. A fé em Jesus corre seríssimos riscos quando essa memória por meio da pregação, da catequese, da liturgia e da postura diante da vida e das pessoas não é mais visível no testemunho das igrejas - e de seus membros - que se reivindicam cristãs. A leitura atenta da Escritura e a partilha da vida com aqueles que se esforçam no seguimento vai sustentado o discipulado na noite escura da fé naquele que é o Mestre de nossas vidas.

 

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

Fonte: http://domtotal.com/noticia/1167823/2017/07/nao-sejas-incredulo/

_____________________________________________________________________________________________

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO 
PARA O 51ª DIA MUNDIAL DAS COMUNICAÇÕES SOCIAIS

 

Tema: «“Não tenhas medo, que Eu estou contigo” (Is 43, 5). 
Comunicar esperança e confiança, no nosso tempo»

[28 de maio de 2017]

 

Graças ao progresso tecnológico, o acesso aos meios de comunicação possibilita a muitas pessoas ter conhecimento quase instantâneo das notícias e divulgá-las de forma capilar. Estas notícias podem ser boas ou más, verdadeiras ou falsas. Já os nossos antigos pais na fé comparavam a mente humana à mó da azenha que, movida pela água, não se pode parar. Mas o moleiro encarregado da azenha tem possibilidades de decidir se quer moer, nela, trigo ou joio. A mente do homem está sempre em ação e não pode parar de «moer» o que recebe, mas cabe a nós decidir o material que lhe fornecemos (cf. Cassiano o Romano, Carta a Leôncio Igumeno).

Gostaria que esta mensagem pudesse chegar como um encorajamento a todos aqueles que diariamente, seja no âmbito profissional seja nas relações pessoais, «moem» tantas informações para oferecer um pão fragrante e bom a quantos se alimentam dos frutos da sua comunicação. A todos quero exortar a uma comunicação construtiva, que, rejeitando os preconceitos contra o outro, promova uma cultura do encontro por meio da qual se possa aprender a olhar, com convicta confiança, a realidade.

Creio que há necessidade de romper o círculo vicioso da angústia e deter a espiral do medo, resultante do hábito de se fixar a atenção nas «notícias más» (guerras, terrorismo, escândalos e todo o tipo de falimento nas vicissitudes humanas). Não se trata, naturalmente, de promover desinformação onde seja ignorado o drama do sofrimento, nem de cair num otimismo ingénuo que não se deixe tocar pelo escândalo do mal. Antes, pelo contrário, queria que todos procurássemos ultrapassar aquele sentimento de mau-humor e resignação que muitas vezes se apodera de nós, lançando-nos na apatia, gerando medos ou a impressão de não ser possível pôr limites ao mal. Aliás, num sistema comunicador onde vigora a lógica de que uma notícia boa não desperta a atenção, e por conseguinte não é uma notícia, e onde o drama do sofrimento e o mistério do mal facilmente são elevados a espetáculo, podemos ser tentados a anestesiar a consciência ou cair no desespero.

Gostaria, pois, de dar a minha contribuição para a busca dum estilo comunicador aberto e criativo, que não se prontifique a conceder papel de protagonista ao mal, mas procure evidenciar as possíveis soluções, inspirando uma abordagem propositiva e responsável nas pessoas a quem se comunica a notícia. A todos queria convidar a oferecer aos homens e mulheres do nosso tempo relatos permeados pela lógica da «boa notícia».

A boa notícia

A vida do homem não se reduz a uma crónica asséptica de eventos, mas é história, e uma história à espera de ser contada através da escolha duma chave interpretativa capaz de selecionar e reunir os dados mais importantes. Em si mesma, a realidade não tem um significado unívoco. Tudo depende do olhar com que a enxergamos, dos «óculos» que decidimos pôr para a ver: mudando as lentes, também a realidade aparece diversa. Então, qual poderia ser o ponto de partida bom para ler a realidade com os «óculos» certos?

Para nós, cristãos, os óculos adequados para decifrar a realidade só podem ser os da boa notícia: partir da Boa Notícia por excelência, ou seja, o «Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus» (Mc 1, 1). É com estas palavras que o evangelista Marcos começa a sua narração: com o anúncio da «boa notícia», que tem a ver com Jesus; mas, mais do que uma informação sobre Jesus, a boa notícia é o próprio Jesus. Com efeito, ao ler as páginas do Evangelho, descobre-se que o título da obra corresponde ao seu conteúdo e, principalmente, que este conteúdo é a própria pessoa de Jesus.

Esta boa notícia, que é o próprio Jesus, não se diz boa porque nela não se encontra sofrimento, mas porque o próprio sofrimento é vivido num quadro mais amplo, como parte integrante do seu amor ao Pai e à humanidade. Em Cristo, Deus fez-Se solidário com toda a situação humana, revelando-nos que não estamos sozinhos, porque temos um Pai que nunca pode esquecer os seus filhos. «Não tenhas medo, que Eu estou contigo» (Is 43, 5): é a palavra consoladora de um Deus desde sempre envolvido na história do seu povo. No seu Filho amado, esta promessa de Deus – «Eu estou contigo» – assume toda a nossa fraqueza, chegando ao ponto de sofrer a nossa morte. N’Ele, as próprias trevas e a morte tornam-se lugar de comunhão com a Luz e a Vida. Nasce, assim, uma esperança acessível a todos, precisamente no lugar onde a vida conhece a amargura do falimento. Trata-se duma esperança que não dececiona, porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações (cf. Rm 5, 5) e faz germinar a vida nova, como a planta cresce da semente caída na terra. Visto sob esta luz, qualquer novo drama que aconteça na história do mundo torna-se cenário possível também duma boa notícia, uma vez que o amor consegue sempre encontrar o caminho da proximidade e suscitar corações capazes de se comover, rostos capazes de não se abater, mãos prontas a construir.

A confiança na semente do Reino

Para introduzir os seus discípulos e as multidões nesta mentalidade evangélica e entregar-lhes os «óculos» adequados para se aproximar da lógica do amor que morre e ressuscita, Jesus recorria às parábolas, nas quais muitas vezes se compara o Reino de Deus com a semente, cuja força vital irrompe precisamente quando morre na terra (cf. Mc 4, 1-34). O recurso a imagens e metáforas para comunicar a força humilde do Reino não é um modo de reduzir a sua importância e urgência, mas a forma misericordiosa que deixa, ao ouvinte, o «espaço» de liberdade para a acolher e aplicar também a si mesmo. Além disso, é o caminho privilegiado para expressar a dignidade imensa do mistério pascal, deixando que sejam as imagens – mais do que os conceitos – a comunicar a beleza paradoxal da vida nova em Cristo, onde as hostilidades e a cruz não anulam, mas realizam a salvação de Deus, onde a fraqueza é mais forte do que qualquer poder humano, onde o falimento pode ser o prelúdio da maior realização de tudo no amor. Na verdade, é precisamente assim que amadurece e se entranha a esperança do Reino de Deus, ou seja, «como um homem que lançou a semente à terra. Quer esteja a dormir, quer se levante, de noite e de dia, a semente germina e cresce» (Mc 4, 26-27).

O Reino de Deus já está no meio de nós, como uma semente escondida a um olhar superficial e cujo crescimento acontece no silêncio. Mas quem tem olhos, tornados limpos pelo Espírito Santo, consegue vê-lo germinar e não se deixa roubar a alegria do Reino por causa do joio sempre presente.

Os horizontes do Espírito

A esperança fundada na boa notícia que é Jesus faz-nos erguer os olhos e impele-nos a contemplá-Lo no quadro litúrgico da Festa da Ascensão. Aparentemente o Senhor afasta-Se de nós, quando na realidade são os horizontes da esperança que se alargam. Pois em Cristo, que eleva a nossa humanidade até ao Céu, cada homem e cada mulher consegue ter «plena liberdade para a entrada no santuário por meio do sangue de Jesus. Ele abriu para nós um caminho novo e vivo através do véu, isto é, da sua humanidade» (Heb 10, 19-20). Através «da força do Espírito Santo»,podemos ser «testemunhas»e comunicadores duma humanidade nova, redimida, «até aos confins da terra»(cf. At 1, 7-8).

A confiança na semente do Reino de Deus e na lógica da Páscoa não pode deixar de moldar também o nosso modo de comunicar. Tal confiança que nos torna capazes de atuar – nas mais variadas formas em que acontece hoje a comunicação – com a persuasão de que é possível enxergar e iluminar a boa notícia presente na realidade de cada história e no rosto de cada pessoa.

Quem, com fé, se deixa guiar pelo Espírito Santo, torna-se capaz de discernir em cada evento o que acontece entre Deus e a humanidade, reconhecendo como Ele mesmo, no cenário dramático deste mundo, esteja compondo a trama duma história de salvação. O fio, com que se tece esta história sagrada, é a esperança, e o seu tecedor só pode ser o Espírito Consolador. A esperança é a mais humilde das virtudes, porque permanece escondida nas pregas da vida, mas é semelhante ao fermento que faz levedar toda a massa. Alimentamo-la lendo sem cessar a Boa Notícia, aquele Evangelho que foi «reimpresso» em tantas edições nas vidas dos Santos, homens e mulheres que se tornaram ícones do amor de Deus. Também hoje é o Espírito que semeia em nós o desejo do Reino, através de muitos «canais» vivos, através das pessoas que se deixam conduzir pela Boa Notícia no meio do drama da história, tornando-se como que faróis na escuridão deste mundo, que iluminam a rota e abrem novas sendas de confiança e esperança.

 

Vaticano, 24 de janeiro – Memória de São Francisco de Sales – do ano de 2017.

 

Franciscus

___________________________________________________________________________________________

Amoris Laetitia e a sacralidade da consiência humana

 

Apesar da lei ser um indicativo para a formação das consciências, o matrimônio deve ser lido em ótica pastoral-existencial, mais que jurídico-sacramental pela Igreja.

Formar as consciências, não substituí-las

Por Rodrigo Ladeira*

 

“A consciência é o centro mais secreto e o santuário, no qual o ser humano se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser.” (GS 6).

Antes de propor algumas chaves de leitura para a questão da consciência humano-cristã na Exortação Apostólica sobre a “Alegria do amor” (AL) de Francisco, consideraremos, de saída, que este texto trata, em primeiro plano, da complexidade da vida familiar na atualidade. O tema da consciência aparece aí de maneira assessora e se destaca, sobretudo, quando aborda os chamados “casos difíceis” no âmbito da relação matrimonial. Disso decorre que, na íntegra, AL não pretende uma abordagem do matrimônio na sua realidade jurídico-sacramental (objetiva), apesar de compreender a lei como indicativo para a formação das consciências (cf. AL 300). Francisco prefere, na esteira do Sínodo das Famílias (2015), uma leitura pastoral-existencial (pessoal) do matrimônio. Nesse caso, a dinamicidade das relações ficarão em destaque. É nessa via que nos aproximaremos do tema da consciência, entendendo que o que se aplica à realidade matrimonial, porque relacional, vale para todo e qualquer agir humano-cristão, uma vez que é aí que a consciência se vê chamada a atuar. Por fim,  trataremos aqui não de qualquer consciência, mas daquela que já temos adjetivado de humano-cristã, portanto, a partir da relação com o Senhor, cabeça da Igreja, da qual  participamos como membros. Essa consciência só pode ser compreendida à luz da Revelação e sua dinâmica reflexiva porque pressupõe um face-a-face com o Senhor, com a “consciência Jesus”.

A novidade do enfoque dado pelo papa sobre a vida matrimonial na questão da consciência passa por três atitudes fundamentais, aplicadas à Igreja na sua totalidade. Elas dão título ao cap. VIII da Exortação e estão assim encadeadas: acompanhar, discernir e integrar a fragilidade. Portanto, mais que teorizar sobre a consciência cristã, AL indica um modo de proceder pastoral da Igreja diante do cristão que, disposto a acolher o Evangelho, está aberto para discernir seu agir na solidão com seu Senhor. Obviamente a solidão cristã não é esquecimento do ser, porque o cristianismo é corpo. Como corpo vivo, cada membro deve se sentir requisitado na relação com o Senhor que por sua vez convoca-nos para o dever de acompanhar a dinâmica da Verdade (que é Jesus), orgânica, implicando o corpo na sua totalidade. Aos pastores, por exemplo, cabe o múnus de orientar a fé e acompanhar os fiéis no drama de tornar-se humano-cristão e cumprir a lei do amor evangélico, com paciência e delicadeza (cf. AL 296), sem imposição de normativas totalmente extrínsecas.

Para a formação da consciência cristã, Francisco indica a chamada “lei da gradualidade”, ensinada por São João Paulo II, na qual deve ser verificada a “consciência possível” de cada pessoa, “ciente de que o ser humano ‘conhece, ama e cumpre o bem moral segundo diversas etapas de crescimento’” (AL 295). Somos lembrados que a Igreja, mais que inquisidora, é um “hospital de campanha” (cf. AL 291). Como educadora da fé, seria para a Igreja “mesquinho deter-se a considerar apenas se o agir duma pessoa corresponde ou não a uma lei ou norma geral, porque isto não basta para discernir e assegurar uma plena fidelidade a Deus na existência concreta dum ser humano” (AL 304). O caminho então deve, necessariamente, passar pela misericórdia e integração e não da simplória e fácil aplicação da norma geral e da condenação eterna. É imperativo “derramar a misericórdia de Deus sobre todas as pessoas que a pedem com coração sincero. (…) evitando os juízos que não tenham em conta a complexidade das diversas situações (…) atentos ao modo como as pessoas vivem e sofrem” (AL 296).

A AL nos convida a formar e não substituir as consciências (cf. AL 37). “Por isso, um pastor não pode sentir-se satisfeito apenas aplicando leis morais àqueles que vivem em situações ‘irregulares’, como se fossem pedras que se atiram contra a vida das pessoas”(Al 305). A Igreja, corpo total, mais do que engendrar novas regras e normas canônicas, deve se preocupar em acolher as fragilidades e deitar sobre os caídos o azeite do amor que é Cristo mesmo.

O texto de Francisco, mais que apontar para uma malsã consciência individualista, põe em destaque uma sadia consciência eclesial, entendendo que a Igreja é organismo vivo onde cada membro, assumindo sua função, se faz promotor da integração por meio do acompanhamento e do discernimento. Obviamente, se se fala em acompanhar é porque cada membro, como signatário de Cristo, porque incorporado a ele, deverá se colocar numa relação de radical intimidade, nesse sentido sagrada, com Cristo cabeça, onde as consciências pessoais (não individuais) são iluminadas e encorajadas no Amor a decidir-se no e em vista do seu próprio corpo pessoal que é, no fim das contas, o corpo total.

Uma palavra de alento e de esperança para a liberdade das consciências, no Senhor, pode ser encontrada em Mateus 7,1. A regra de ouro, a exigência do Evangelho, é a de não julgar nem condenar. O papa diz ser até compreensível que alguns prefiram uma pastoral mais rígida, sem confusão, mas crê que Cristo deseja uma Igreja “atenta ao bem que o Espírito derrama no meio da fragilidade”. Mesmo se se parte da doutrina, toda mãe, como educadora, isso vale para a Igreja como depositária da fé, “não renuncia ao bem possível, ainda que corra o risco de sujar-se com a lama da estrada”(AL 308).

Não devemos temer o confronto com o Senhor. Um discernimento da consciência do crente, do batizado, só pode ser-lhe salutar no vis-à-vis misericordioso da Trindade. Esse caminho pode e deve ter a colaboração do corpo total, tanto daqueles que participam do corpo agindo “na pessoa de Cristo”, os presbíteros, nossos irmãos mais velhos, mas também dos mais novos, os batizados em Cristo.

Na igreja (com “i” minúsculo) de outrora, e durante muito tempo, fomos, os batizados, “impedidos” de atuar autonomamente nossa consciência, como se fôssemos cristãos de segunda categoria. Era vedada a inteligibilidade da fé, o que caducava a relação de intimidade com o Senhor. Agora, diante das circunstâncias do mundo moderno, com alegria, estamos restabelecendo, a passos lentos é verdade, o ideário de uma Igreja (com “I” maiúsculo) livre, chamada e atraída para dentro do Amor, para a relação esponsal. Quanto mais próximos do Amor, que é a Liberdade, mais livre ficamos, menos autossuficientes. Liberdade que gera a diversidade na unidade em Cristo, plenitude e maturidade cristã. “Foi o que Jesus fez com a Samaritana (cf. Jo 4,1-26): dirigiu uma palavra ao seu desejo de amor verdadeiro, para a libertar de tudo o que obscurecia a sua vida e guiá-la para a alegria plena do Evangelho” (AL 294).

Francisco nos encoraja a assumir o que em nós é frágil, fraco, débil, kenótico, abrindo assim espaços para a ternura. Só aí encontramos nossa consciência verdadeira porque inundada dos valores do Evangelho. “Jesus espera que renunciemos a procurar aqueles abrigos pessoais ou comunitários que permitem manter-nos à distância do nó do drama humano, a fim de aceitarmos entrar em contato com a vida concreta dos outros e conhecermos a força da ternura. Quando o fazemos, a vida complica-se sempre maravilhosamente”. (AL 308).

Leia também:

Amoris Laetitia, um elogio ao amor

O amor no matrimônio segundo a Amoris Laetitia

Acompanhar, discernir e integrar as fragilidades da realidade familiar

 (Fonte do artigo: https://observatoriodaevangelizacao.wordpress.com)

*Rodrigo Ladeira é mestre em Teologia Litúrgica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) / BH-MG. Coordena as atividades de educação continuada e pós-graduação lato sensu dessa mesma IES. Ensina Liturgia e Sacramentos em vários cursos livres e de especialização de teologia em Belo Horizonte-BH.

_____________________________________________________________________________________ 

A guinada conservadora ameaça os pobres

 

Os brasileiros precisamos ter a consciência da gravidade do momento político, social, econômico e moral que vivemos nos últimos meses. No difícil ano de 2016, o País viu-se diante de projetos e decisões congressuais - alguns já implementados - que claramente trarão em curto e médio prazo consequências graves para os trabalhadores e os pobres. O rotundo silêncio do presente contrasta, inexplicavelmente, com o rotundo barulho do ontem. 

 

A conscientização e mobilização contra a chamada PEC 241 na Câmara Federal e PEC 55 no Senado, que mereceu nossa atenção e apoio, não lograram resultado. Como compreender a lógica do corte no social e na educação e ao mesmo tempo o aumento nos ministérios, nos salários de algumas categorias já bem enriquecidas em relação à grande massa de assalariados e desempregados no País? Assuntos outros como a polêmica reforma do ensino médio, a redução da maioridade penal, a reforma da Previdência Social, a transferência da responsabilidade pela demarcação das terras indígenas do poder Executivo para o Legislativo, como a inapetência do Estado frente ao contínuo agravamento das condições devida das populações indígenas, as mudanças no estatuto do desarmamento, as alterações em leis trabalhistas, o preenchimento de inúmeros cargos importantes com políticos, empresários e juristas sob suspeita ou em adiantado processo de investigação, apontam, infelizmente, para sérios retrocessos em diversas conquistas que resultaram da mobilização de milhões de brasileiros desde tempos nem tão recentes, como o da Constituinte, por exemplo.

 

 

É inegável que são propostas que, a despeito das fartas justificativas e explicações de natureza econômica e financeira, significarão ainda mais riscos, perdas e sacrifício para os pobres. Mas não apenas estes. Famílias da chamada classe média veem rapidamente diminuir seu poder de compra, tendo que adiar sonhos como o de possuir o imóvel próprio, aumentar a família, formar os filhos na universidade ou que seja viajar e descansar da rotina de trabalho, cada vez mais massacrante e, com a pretendida reforma da Previdência, com perspectivas muito longínquas de aposentadoria. A mortalidade precoce ronda cada vez mais as micro e pequenas empresas, que mal conseguem pagar os salários de seus poucos funcionários.      

 

                                                                   

Mas a reação governamental a isso tem sido, por um lado, a defesa dos interesses do grande capital e, por outro, a exigência de sacrifícios dos mais pobres e a agudização das condições de sobrevivência da micro-economia e da própria economia doméstica. Mais do que poupado, o sistema financeiro é novamente privilegiado. Como no mundo todo, os bancos vão bem melhor que o País. Aliás, difícil lembrar no Brasil algum momento em que banqueiros tenham reclamado de decisões econômicas. A mais terrível síndrome brasileira da “Casa Grande & Senzala” arraigada no modus operandis, faciendi e vivendi sociopolítico, governamental, empresarial e, assombremo-nos todos, também do judiciário. 

 

Se a economia é que, em geral, mais impacta as pessoas, não devemos nos distrair em relação aos outros setores da vida social. Um fenômeno que parece, ao mesmo tempo, se dar também em vários países do mundo, o Brasil testemunha neste momento uma triste desaceleração e recuo em iniciativas de resgate da dignidade popular. Somada à crise econômica que, como sempre, atinge de modo mais draconiano e covarde os empobrecidos, observamos, claramente, no País, na política e nos direitos sociais, uma guinada conservadora e neoliberal.

 

Importantes conquistas em termos dos dispositivos e dinâmicas de participação democráticas nas políticas públicas e diretamente nos governos dos municípios e estados via associações de bairros, de categorias profissionais, grupos sociais e redes de apoio comunitário vão se fragilizando e desmaterializando. É lamentável observar como a cidadania no Brasil, mantida historicamente em situação anêmica e emudecida, volta a ser constrangida, na exata hora em que reanimava-se e reunia forças para erguer a cabeça e caminhar.

 

Pode-se mencionar aqui as paradoxais medidas de imputar penalmente os adolescentes – pessoa adulta em formação – e permitir que os recém-adultos possam portar armas de fogo, o que certamente não significará a diminuição ou maior controle da violência. Pelo contrário, tudo sugere que aumentará a verdadeira guerra civil que, anualmente, dizima dezenas de milhares de brasileiros em mortes por arma de fogo, especialmente os mais jovens e negros, muitos pelas forças que deviam proteger a população. Tragédia sobre a qual a sociedade simplesmente silencia.

 

Assim como também a mídia e a maior parte da sociedade não se pronunciam sobre o gravíssimo momento enfrentado pelas populações indígenas brasileiras. Nesses quase 30 anos de vigência da Constituição, que estabeleceu avanços importantes de proteção aos direitos indígenas e das populações tradicionais, essas comunidades talvez estejam enfrentando hoje os riscos mais graves do que em qualquer outro momento desde o início da vigência da atual Carta Magna. É a conclusão de um relatório apresentado ao Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas. O relatório chama a atenção para um aspecto que parece bem sintomático do Brasil atual, em que o Estado insiste em viver divorciado da sociedade civil. O País dispõe de uma série de disposições constitucionais exemplares em relação aos povos indígenas, mas não as aplica e o que se percebe é a deterioração intensa das condições de vida desses povos.

 

Nenhuma nação pode realizar-se em meio a tanta desigualdade. É papel precípuo da Universidade não só expressar sua solidariedade às massas de pobres, trabalhadores empregados ou não, homens e mulheres de boa vontade e de todas as idades, como também contribuir para a formação da consciência crítica, cidadã, ecológica integral, progressista, ética, arejada, humanizada, inclusiva, justa e livre.    

 

Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães

Bispo auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte

 

Reitor da PUC Minas 

________________________________________________________________________________________

 

A Igreja em um contexto de “Reforma digital”: rumo a um sensus fidelium digitalis?

 

Moisés Sbardelotto, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, assina o artigo A Igreja em um contexto de “Reforma digital”: rumo a um sensus fidelium digitalis?, no número 116 do Cadernos Teologia Pública. 

 

O autor busca constituir sua reflexão no contexto de midiatização digital em que a Igreja e a sociedade em geral passam a ter novas possibilidades na construção de sentido. Assim, Moisés quer observar “os desafios apresentados pelas mudanças comunicacionais contemporâneas às Igrejas e às religiões, entendidas a partir do conceito de ‘Reforma digital’”. “A partir do caso católico, examinam-se documentos pontifícios que revelam a compreensão da Igreja sobre tais mudanças, especialmente as recentes mensagens anuais para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, articulando-os com entrevistas com responsáveis pela comunicação vaticana”, destaca Moisés. No texto, o autor ainda destaca “algumas respostas da Igreja Católica a tal fenômeno, mediante aquilo que chamamos de ‘Contrarreforma digital’. Sugere-se que os processos comunicacionais de construção do ‘ser católico’ contemporâneo podem estar dando origem a formas novas e renovadas de constituição e manifestação do sensus fidelium, agora encarnado no ambiente digital”. 

 

Acesse o artigo completo em versão PDF.

 

Esta e outras edições dos Cadernos Teologia Pública podem ser obtidas diretamente no Instituto Humanitas Unisinos – IHU, no campus São Leopoldo da Unisinos (Av. Unisinos, 950), ou solicitadas pelo endereço humanitas@unisinos.br.

_________________________________________________________________________________________

Diálogos Educacionais

28/10/2016

O contínuo processo de deterioração global, que atinge tecidos culturais da civilização contemporânea, configura grave crise humanística e impõe urgente desafio: resgatar instituições diversas – políticas, religiosas, sociais, familiares e tantas outras – de certos funcionamentos que comprovam o descompasso de um tempo em que novas perguntas e complexas dinâmicas culturais convivem com respostas obsoletas e procedimentos ultrapassados. A necessária reconstrução civilizatória requer muitos investimentos, a começar pelos diálogos educativos, fundamentais em todos os processos, indispensáveis para superar o atual fenômeno de deterioração global. 

O conjunto de situações que ameaça a humanidade desafia a compreensão de líderes e cidadãos comuns. Por isso, buscar diálogos que impulsionem efetivos entendimentos a respeito da realidade, nas muitas ações cotidianas, nos diferentes âmbitos, constitui o caminho para se encontrar soluções. Obviamente, não basta que esses entendimentos sobre a realidade se concentrem nas mãos de uma minoria privilegiada. Indispensável é proporcionar a todos uma nova compreensão, que ilumine competências e, consequentemente, permita a intuição de novos modelos e funcionamentos capazes de garantir um futuro melhor.   Esse desafio, que só pode ser vencido a partir de diálogos educativos, é capaz de promover reconfigurações nas instituições a partir de suas engrenagens: as muitas pessoas que as integram. 

Oportuno é reconhecer que a sociedade padece de estreitamentos no horizonte da compreensão e isso dificulta escolhas, atrasa respostas e gera verdadeiras prisões. Enjaulada, a humanidade não dá mais conta de encontrar as respostas novas que a complexidade sociocultural do mundo contemporâneo exige: permanece inerte neste tempo que demanda uma virada antropológica, de modo veloz, para evitar prejuízos irreversíveis. Sem a necessária ruptura com essa situação, a sociedade continua a se deixar conduzir rumo a direções que invariavelmente produzem deterioração e conflitos. Proliferam cenários degradantes que preocupam muito e, ao mesmo tempo, provocam sentimento de impotência, exatamente por não se saber o que fazer para superá-los. 

Quando se reflete, por exemplo, a realidade do sistema prisional brasileiro, que combina uma população carcerária numericamente tão alta, com poucos recursos para os processos de ressocialização, sabe-se que o país está potencializando um explosivo “barril de pólvoras”.  Sua explosão atingirá a dignidade inviolável de cada pessoa, degradando o conjunto de toda a sociedade. Também causam preocupação os processos educativos dedicados aos jovens. Conduzidos em direções perigosas que ameaçam o futuro, esses processos carecem de investimentos capazes de qualificar os jovens para o exercício da cidadania. Essas e tantas outras realidades desoladoras impactam a vida de todos, de modo especial o cotidiano dos mais pobres que, além de sofrerem com os pesos que lhes são impostos pela perversa exclusão social, perdem, gradativamente, a esperança. 

A continuar assim, a sociedade prossegue rumo a um precipício: a indiferença relativista. Fenômeno extremamente perigoso, que se revela em diferentes estatísticas. O número de assassinatos no Brasil, por exemplo, é semelhante ao de guerras. As mortes no trânsito, resultado da imprudência e do descaso, são também um desrespeito à vida.  Essa indiferença relativista integra uma cultura dominante que se ocupa, prioritariamente, do que é exterior, visível, imediato, superficial e provisório. Ao mesmo tempo, deteriora raízes culturais que são importantes para a humanidade. O preço já pago é a banalização da violência, o desconhecimento sobre a sacralidade da vida, o obscurantismo nas escolhas e nos posicionamentos.  

A indiferença relativista também promove a diminuição da competência racional e humanística dos cidadãos, incapacitando-os para a necessária tarefa de se alcançar respostas inventivas e criativas que devem substituir as engrenagens enferrujadas e comprometedoras do desenvolvimento integral. Há um antídoto para essa indiferença: investir nos diálogos educativos, envolvendo academias, escolas, famílias, igrejas, as instituições todas e cada cidadão, em um mutirão de intercâmbios de narrativas, com a partilha dos modos de ver a realidade. Esse exercício possibilita recuperar o tecido cultural, primeiro passo para reconstruir a sociedade. Ignorar a necessidade de se investir no diálogo é permanecer na amarga situação de cegueira, sem saber o rumo certo a seguir. Os diálogos educativos, por diferentes modos e dinâmicas, em todos os lugares, garantem o aprimoramento da compreensão cidadã para discernimentos e escolhas, ante a urgente tarefa de se reconstruir a cidadania brasileira.

 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

 

 Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

________________________________________________________________________________________

Gestão e política

30/09/2016



Gerir processos e funcionamentos é complexo desafio principalmente quando são consideradas as exigências, necessidades e prioridades. Ao gestor, requerem-se resultados e não é permitido um planejamento que busque apenas a manutenção burocrática do que já se conquistou. Mas, lamentavelmente, existem certos hábitos culturais que impõem atrasos e inviabilizam o caminhar na direção das inovações. Esses costumes também alimentam a baixa autoestima da população e precisam ser superados para se alcançar o êxito. 

Há de se considerar que toda cultura guarda, nos hábitos e práticas, idiossincrasias que devem ser corrigidas para não se tornarem furos por onde as energias escapam. E muitos são os procedimentos que podem eliminar tudo o que impede a limpidez, a velocidade e a objetividade nos processos capazes de vencer descompassos. Para que esses mecanismos se efetivem, sempre será necessário o exercício cidadão das avaliações e análises. Uma permanente disponibilidade para derrubar os obstáculos que impedem avanços e progressos. São muitas as barreiras, de todo tipo, e várias delas são desconsideradas. Assim, não recebem os tratamentos adequados e continuam a minar forças.  Acabam alimentando comodismos com a justificativa de que “sempre foi assim”. 

Dentre esses graves hábitos culturais que precisam ser superados, há um que merece atenção especial: o descaso com o qual é tratado o patrimônio histórico, cultural e religioso de um povo. A desconsideração é generalizada, indicando a necessidade de se promover, inclusive a partir de processos educativos, o desabrochar da consciência sobre a grandeza desse patrimônio. É grave quando uma ambiência cultural não contribui para a difusão do conhecimento e a valorização dos próprios bens históricos, culturais e religiosos. Principalmente, quando se costuma valorizar somente o que pertence aos outros, em lugares distantes. 

A consequência dessa visão distorcida é o inadequado tratamento, nos campos da preservação e promoção, por parte de cidadãos e governantes. É lastimável o desconhecimento da riqueza da própria história. Parece que tudo começou hoje. Perde-se, no esquecimento, a herança dos antepassados, com prejuízos para identidades e sua preservação. Nesse horizonte, é deplorável a incapacidade para lidar, usufruir e valorizar as diferentes culturas que compõem o tecido de uma sociedade.  É condenável a tendência jocosa de “rifar” a própria riqueza cultural, enfraquecendo o amálgama consistente que pode advir desse patrimônio. Sem esses bens, a contribuição cidadã fica sempre muito comprometida, pois se perde componente determinante para a promoção da autoestima. Perde-se a capacidade para a inovação e a audácia. Habitua-se ao que é mediano e contenta-se em admirar o que é extraordinário, mas pertencente a outros lugares e pessoas. 

Nessa direção, convive-se com prejuízos - na economia, no turismo e na infraestrutura. Potencialidades são desperdiçadas. Esses comprometimentos, com uma lista de tantos outros, precisam ser considerados, pois não é possível admitir as perdas acirradas pelas irresponsabilidades ou incompetências das instâncias administrativas e governamentais. É preciso que se contemple os patrimônios de outras culturas, não para simples contemplação, mas como gesto capaz de mexer com os próprios brios e, assim, suscitar um espírito de luta - força para ações que busquem valorizar o que se tem e o que se é. Os que governam necessitam de uma sabedoria que lhes permita incursões no domínio da cultura para promover e fortalecer valores com a insubstituível consciência da prioridade que merecem os mais pobres. O desenvolvimento de uma sociedade, para ser duradouro, tem que ser sustentável e integral. 

A gestão, pois, para além de resultados econômicos, deve se pautar na relação entre princípios e valores, alicerçados nos parâmetros da justiça, liberdade e da verdade. Esse modo de pensar processos gerenciais é conflitante com o que se percebe na dimensão da política partidária. Os representantes do povo, no Executivo e no Legislativo, gastam tempo demais na arquitetura de conchavos, coligações, discussões, muitas delas de caráter apenas partidário, motivadas por interesses pessoais ou de pequenos grupos.  Sobra pouco tempo para os assuntos verdadeiramente urgentes, de interesse da população, que requerem sabedoria, agilidade, priorização. Prevalecem a pouca assertividade, a velocidade similar a passos de tartaruga, a busca por soluções a partir de velhas respostas, sem inventividade. Vangloria-se sobre o que já foi feito, quase sempre aquém das necessidades e das potencialidades. 

Gasta-se tempo demais com disputas por cargos e para a satisfação de interesses partidários. Certamente, esses são alguns hábitos que inviabilizam o desabrochar de autênticos líderes. No complexo âmbito de gestão e política, há urgências que exigem ousadia, correções de elementares posturas. De modo mais amplo, torna-se urgente corrigir dinâmicas que atrasam processos, promovem a mediocridade, demolindo patrimônios culturais, históricos e religiosos em razão de vícios e descompassos na relação entre a gestão e a política.


Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

__________________________________________________________________________________________

Ano eleitoral desafia

 

Situações muito complexas no ambiente sociopolítico emolduram este ano de eleições - com riscos de fracassos que poderão afetar ainda mais seriamente as dinâmicas da sociedade.  O quadro de candidaturas não é promissor quando se toma conhecimento dos cenários que estão se configurando nos municípios todos, dos maiores aos menores. Quando não se investe em líderes lúcidos, capazes de priorizar o bem comum e de agir com a velocidade indispensável para solucionar graves problemas, paga-se alto preço. Por isso, é fundamental que todos os cidadãos se comprometam com o processo eleitoral, interessando-se pelo assunto, superando o consequente desânimo que se abate sobre o conjunto da sociedade, em razão das derrocadas e desarticulações ocorridas, especialmente, nestes últimos anos. “Virar as costas” para o processo eleitoral é um risco, pois favorece os “aventureiros”, as escolhas inadequadas. Desconsiderar a importância das eleições significa menosprezar a força que só o povo tem, de exigir dos políticos novas posturas.

A direção correta é a participação clarividente em discussões e reflexões sobre política.  A dedicação a esse tema pode promover uma participação popular mais adequada, com a adoção de critérios que favoreçam as eleições destituídas de emocionalismos e, sobretudo, dos interesses partidários e cartoriais que têm marcado o modo de fazer política no Brasil. Nesse sentido, corrigir as dinâmicas que definem o universo da política é um modo eficaz de debelar a corrupção, freando interesses pequenos e grupais que prejudicam o bem comum, o equilíbrio social e econômico. Por isso mesmo, as igrejas, as escolas, a mídia, os segmentos culturais e artísticos, associações e grupos organizados da sociedade civil, de todo tipo, têm o dever de se mobilizar para que o ano eleitoral não seja marcado pela apatia dos cidadãos. 

Vale lembrar o que ensina o Papa Francisco: para o cristão é uma obrigação envolver-se na política, não se pode lavar as mãos como Pilatos.  O Santo Padre afirma que “devemos nos envolver na política, pois a política é uma das formas mais altas da caridade, porque busca o bem comum. E os leigos cristãos devem trabalhar na política”.  Francisco ainda apresenta a seguinte argumentação: “Você, então, me dirá: ‘mas, não é fácil porque a política está suja’. E, então, eu pergunto: a política está suja por quê? Não será porque os cristãos se envolveram na política sem o espírito do Evangelho? Faço-lhe outra pergunta: é fácil dizer que a culpa é de outro, mas o que eu estou fazendo? É um dever trabalhar para o bem comum, é um dever do cristão”.

Sem o envolvimento cidadão de todos não será possível alcançar as metas de um país democrático, economicamente justo, socialmente igualitário, sem corrupção, sem violências, discriminação e com oportunidades iguais para todos. Por isso, não se pode abdicar da participação na política. É preciso ir aonde está sujo para limpar. E a etapa que precede as eleições, as campanhas eleitorais, é de grande importância para que o voto seja escolha adequada. Para votar bem é imprescindível conhecer os programas dos partidos, os candidatos e suas propostas de trabalho. Oportuno lembrar também que o dever cidadão não se esgota nas eleições, mas abrange outra fundamental fase: o acompanhamento dos mandatos, tecendo culturas e práticas que possam comprometer os governantes a estarem sempre a serviço do povo, do bem comum. 

Muitas são as iniciativas que agora precisam entrar em cena para a mobilização participativa de toda a sociedade, com a promoção de debates, sabatinas, apresentação e assinatura de cartas-compromisso, relacionadas a causas relevantes para a comunidade. Ações que abrangem, até mesmo, a elaboração de projetos de lei fundamentados no bem comum, solicitando o comprometimento de candidatos para que, de fato, essas iniciativas sejam incorporadas ao sistema legal. A democracia precisa ser fortalecida e as eleições municipais são uma “oportunidade de ouro”. Para aproveitá-la, é preciso sair da apatia, promover a participação, conhecer a vida dos candidatos, avaliar se “dão conta do recado”, se têm competência humanística. Trata-se de um desafio, mas, ao mesmo tempo, de grande chance para reverter o quadro calamitoso da política brasileira, investindo em mudanças que já são tardias.

 

 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

 

 Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

_______________________________________________________________________________________

Erguer outras tochas 

 

A passagem da tocha olímpica por diferentes cidades tem congregado multidões, uma explosão de alegria e entusiasmo. No horizonte está o acontecimento dos jogos olímpicos no Rio de Janeiro. Um importante evento, considerada a sua força educativa, que pode contribuir para a promoção da paz entre os povos, ajudar a cultivar o sentido de disciplina que é caminho para muitas conquistas.  A olimpíada traz um conjunto de lições e a tocha olímpica é seu símbolo. Sua luminosidade, que passa pelas ruas das cidades brasileiras, atraindo a atenção da mídia e das pessoas, tem poder simbólico que indica ser urgente carregar muitas outras tochas, uma interminável lista de itens.



É tarefa cidadã considerar essas necessidades e agir diante da urgência para se conquistar uma iluminação diferente, nova, capaz de retirar a sociedade brasileira dos lamaçais da corrupção. Essas tochas envolvem uma série de itens, possibilitando enxergar e alcançar novos ordenamentos sociais e políticos, fundamentais para uma arrancada mais rápida e consistente rumo à solução das crises que geram sofrimento e desfiguram o tecido cultural brasileiro.



A tocha da consciência moral deve receber investimentos, permanentemente, para evitar sua terrível degradação.  O caos moral é responsável pela desarticulação das dinâmicas que sustentam o equilíbrio, a convivência, o sentido de respeito e honestidade, indispensáveis para a vida em comunidade. O tratamento inadequado dessa tocha, enfraquecida pelos relativismos ético-morais, é responsável pela violência e a indiferença. Quando falta a chama da consciência moral, a paz fica comprometida, perde-se a sensibilidade que é fonte para um remédio indispensável: a solidariedade humana, que equilibra relações e garante sustentabilidade ao tecido da cultura.



É preciso reacender a tocha da autoridade política, apagada pela ausência de envergadura moral na tarefa cidadã da representatividade, o que leva ao uso inadequado do poder. Acender essa tocha depende, fundamentalmente, da irrestrita consideração e respeito ao povo. A autoridade política precisa ter consciência de que a soberania é do povo, que confia o poder aos eleitos para representá-lo. Por isso, cabe aos políticos exercer seu papel seguindo orientações da lei moral. Desvirtuar essa lei significa apagar a tocha essencial para iluminar o caminho das autoridades. Na direção oposta, reluz quem promove os valores humanos e morais, para além dos conchavos partidários, dos loteamentos do poder e da satisfação de interesses que ameaçam o bem comum. 



Não menos urgentes são os raios luminosos da tocha empunhada pelos construtores da sociedade civil, que precisam se deixar interpelar por um sentido mais amplo de vida. Assim, poderão, verdadeiramente, contribuir para multiplicar e tornar os bens deste mundo mais acessíveis a todos.  A luz dessa tocha pode curar a cegueira que sustenta a idolatria ao dinheiro e a confiança nas ilusões produzidas pela mão invisível do mercado. Quando se conquista a luminosidade que faz enxergar de modo mais adequado a situação dos mais pobres, resultados duradouros são alcançados. Toda a sociedade precisa assumir o compromisso de agir para mudar a realidade dos que sofrem.  Sem a luz da tocha da opção preferencial pelos pobres, haverá comprometimentos diversos, com prejuízos para todos. 



No atual contexto, diante do entusiasmo e da significação que emanam do percurso da tocha olímpica, é oportuno listar outras muitas “chamas” que podem garantir o intocável respeito à dignidade humana e ao bem comum, para que haja a recuperação do sentido de autoridade política, adequada estruturação da economia e para que seja reconquistada a nobreza indispensável ao exercício da cidadania. Vitórias que serão alcançadas quando todos, com galhardia, disciplina e honestidade, erguerem essas muitas outras tochas.

 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

 

 Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

_________________________________________________________________________________________________________________________________

Riacho que não seca

“Riacho que não seca” é poesia inspiradora do profeta Amós - presente no capítulo cinco de sua profecia - lema da Campanha da Fraternidade Ecumênica 2016, promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic).  O profeta refere-se ao desejo de ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca. Direito e justiça, um binômio para alicerçar as mudanças que precisam ser realizadas nas dinâmicas da cultura brasileira. A partir da Campanha da Fraternidade 2016, todos que assumem o compromisso de testemunhar a fé em Jesus Cristo, em diferentes denominações religiosas, são convocados a contribuir para transformar a realidade. O foco está na exigência de novas posturas diante da natureza, nesse horizonte interpelador de olhar o mundo como “casa comum”. Nesse sentido, cada pessoa é convocada a refletir sobre a distribuição dos bens materiais, que deve ocorrer de forma mais justa.  É preciso encontrar caminhos para que os bens sejam utilizados na edificação de uma sociedade com mais igualdade, exatamente na contramão de apropriações que alimentam a ganância de muitos.

 

O progresso econômico que não produz igualdade é insustentável, alimento de injustiças. Gera prejuízos como a corrupção e o aumento da violência. É dinâmica que ameaça a todos, mesmo os que se refugiam em verdadeiras fortalezas, com sofisticados esquemas de segurança, e acreditam estar protegidos. Imprescindível é buscar garantir a efetivação de direitos fundamentais à vida humana e cuidar bem do planeta. Isso é parte fundamental da justiça, que precisa ser como “um riacho que não seca”. Sem ela, não há como combater a corrupção e a violência que estão destruindo a ordem e a harmonia da criação de Deus. A falta do sentido de justiça alimenta o caos social e empurra inexoravelmente o planeta rumo ao colapso ambiental. 

 

A justiça não pode ser apenas mecanismo para mensurar a própria honestidade. Ela requer o compromisso de todos os cidadãos, que devem intervir mais decisivamente em processos de transformação  social, buscando acabar com sofrimentos que pesam sobre os ombros dos mais pobres, principalmente. Em uma lista de urgências, ao se considerar o cuidado com a “casa comum” como responsabilidade de todos, a Campanha da Fraternidade Ecumênica 2016 busca a união de esforços para assegurar que sejam ampliados os serviços de saneamento básico, o que é indispensável para efetivar o adequado cuidado com o meio ambiente e com as pessoas.  Esse é um tema relevante no contexto brasileiro, que precisa qualificar e ampliar a oferta de inúmeros serviços relacionados ao abastecimento de água, ao adequado manejo dos esgotos sanitários, águas pluviais e resíduos sólidos, ao controle de reservatórios e dos agentes transmissores de doenças.  Esses serviços refletem diretamente na saúde das pessoas e, consequentemente, nas condições de vida das comunidades. 

 

As questões ligadas ao saneamento básico abrangem, assim, justiça social e cuidado ambiental.  Por isso, têm que ser prioridade. Estudos a partir de números e estatísticas devem mostrar a real situação de municípios, bairros e comunidades.  Sem os investimentos adequados, a sociedade continuará a sofrer com defasagens nos serviços de saneamento básico, um peso injusto, sobretudo sobre os ombros dos mais pobres. O ponto de partida da discussão é efetivamente reconhecer o saneamento básico como essencial; direito do cidadão e dever do Estado. Nesse sentido, governar bem, de modo adequado e justo, é investir na universalização desse serviço. No Brasil, mesmo considerando avanços nesse campo, permanece ainda um enorme desafio a ser vencido. 

 

Quando se considera estatísticas sobre o saneamento básico, constata-se que há, ainda, carência de investimentos. Sem robustos programas nessa área fica comprometida a saúde. Sabe-se que, a cada dois minutos e meio, no planeta, uma criança morre por não ter acesso à água potável e por falta de condições básicas de higiene. Assim, neste ano eleitoral, será importante avaliar, dentre outros aspectos, se os candidatos contemplam em suas propostas as ações concretas relacionadas ao saneamento básico. O ponto de partida será sempre, no coração e no entendimento de cada cidadão, o desejo de querer “ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual um riacho que não seca” (Am 5,24).

 

 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

 Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

________________________________________________________________________________________

As obras de misericórdia no caminho jubilar



1. Maria, ícone duma Igreja que evangeliza porque evangelizada
Na Bula de proclamação do Jubileu, fiz o convite para que «a Quaresma deste Ano Jubilar seja vivida mais intensamente como tempo forte para celebrar e experimentar a misericórdia de Deus» (Misericordiӕ Vultus, 17). Com o apelo à escuta da Palavra de Deus e à iniciativa «24 horas para o Senhor», quis sublinhar a primazia da escuta orante da Palavra, especialmente a palavra profética. Com efeito, a misericórdia de Deus é um anúncio ao mundo; mas cada cristão é chamado a fazer pessoalmente experiência de tal anúncio. Por isso, no tempo da Quaresma, enviarei os Missionários da Misericórdia a fim de serem, para todos, um sinal concreto da proximidade e do perdão de Deus.

Maria, por ter acolhido a Boa Notícia que Lhe fora dada pelo arcanjo Gabriel, canta profeticamente, no Magnificat, a misericórdia com que Deus A predestinou. Deste modo a Virgem de Nazaré, prometida esposa de José, torna-se o ícone perfeito da Igreja que evangeliza porque foi e continua a ser evangelizada por obra do Espírito Santo, que fecundou o seu ventre virginal. Com efeito, na tradição profética, a misericórdia aparece estreitamente ligada – mesmo etimologicamente – com as vísceras maternas (rahamim) e com uma bondade generosa, fiel e compassiva (hesed) que se vive no âmbito das relações conjugais e parentais.

 

2. A aliança de Deus com os homens: uma história de misericórdia

 

O mistério da misericórdia divina desvenda-se no decurso da história da aliança entre Deus e o seu povo Israel. Na realidade, Deus mostra-Se sempre rico de misericórdia, pronto em qualquer circunstância a derramar sobre o seu povo uma ternura e uma compaixão viscerais, sobretudo nos momentos mais dramáticos quando a infidelidade quebra o vínculo do Pacto e se requer que a aliança seja ratificada de maneira mais estável na justiça e na verdade. Encontramo-nos aqui perante um verdadeiro e próprio drama de amor, no qual Deus desempenha o papel de pai e marido traído, enquanto Israel desempenha o de filho/filha e esposa infiéis. São precisamente as imagens familiares – como no caso de Oseias (cf. Os 1-2) – que melhor exprimem até que ponto Deus quer ligar-Se ao seu povo. Este drama de amor alcança o seu ápice no Filho feito homem. N’Ele, Deus derrama a sua misericórdia sem limites até ao ponto de fazer d’Ele a Misericórdia encarnada (cf. Misericordiӕ Vultus, 8). Na realidade, Jesus de Nazaré enquanto homem é, para todos os efeitos, filho de Israel. E é-o ao ponto de encarnar aquela escuta perfeita de Deus que se exige a cada judeu pelo Shemà, fulcro ainda hoje da aliança de Deus com Israel: «Escuta, Israel! O Senhor é nosso Deus; o Senhor é único! Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças» (Dt 6, 4-5). O Filho de Deus é o Esposo que tudo faz para ganhar o amor da sua Esposa, à qual O liga o seu amor incondicional que se torna visível nas núpcias eternas com ela.

Diante deste amor forte como a morte (cf. Ct 8, 6), fica patente como o pobre mais miserável seja aquele que não aceita reconhecer-se como tal. Pensa que é rico, mas na realidade é o mais pobre dos pobres. E isto porque é escravo do pecado, que o leva a utilizar riqueza e poder, não para servir a Deus e aos outros, mas para sufocar em si mesmo a consciência profunda de ser, ele também, nada mais que um pobre mendigo. E quanto maior for o poder e a riqueza à sua disposição, tanto maior pode tornar-se esta cegueira mentirosa. Chega ao ponto de não querer ver sequer o pobre Lázaro que mendiga à porta da sua casa (cf. Lc 16, 20-21), sendo esta figura de Cristo que, nos pobres, mendiga a nossa conversão. Lázaro é a possibilidade de conversão que Deus nos oferece e talvez não vejamos. E esta cegueira está acompanhada por um soberbo delírio de onipotência, no qual ressoa sinistramente aquele demoníaco «sereis como Deus» (Gn 3, 5) que é a raiz de qualquer pecado. Tal delírio pode assumir também formas sociais e políticas, como mostraram os totalitarismos do século XX e mostram hoje as ideologias do pensamento único e da tecnociência que pretendem tornar Deus irrelevante e reduzir o homem a massa possível de instrumentalizar. E podem atualmente mostrá-lo também as estruturas de pecado ligadas a um modelo de falso desenvolvimento fundado na idolatria do dinheiro, que torna indiferentes ao destino dos pobres as pessoas e as sociedades mais ricas, que lhes fecham as portas recusando-se até mesmo a vê-los.

Portanto a Quaresma deste Ano Jubilar é um tempo favorável para todos poderem, finalmente, sair da própria alienação existencial, graças à escuta da Palavra e às obras de misericórdia. Se, por meio das obras corporais, tocamos a carne de Cristo nos irmãos e irmãs necessitados de ser nutridos, vestidos, alojados, visitados, as obras espirituais tocam mais diretamente o nosso ser de pecadores: aconselhar, ensinar, perdoar, admoestar, rezar. Por isso, as obras corporais e as espirituais nunca devem ser separadas. Com efeito, é precisamente tocando, no miserável, a carne de Jesus crucificado que o pecador pode receber, em dom, a consciência de ser ele próprio um pobre mendigo. Por esta estrada, também os «soberbos», os «poderosos» e os «ricos», de que fala o Magnificat, têm a possibilidade de aperceber-se que são, imerecidamente, amados pelo Crucificado, morto e ressuscitado também por eles. Somente neste amor temos a resposta àquela sede de felicidade e amor infinitos que o homem se ilude de poder acumular mediante os ídolos do saber, do poder e do possuir. Mas permanece sempre o perigo de que os soberbos, os ricos e os poderosos – por causa de um fechamento cada vez mais hermético a Cristo, que, no pobre, continua a bater à porta do seu coração – acabem por se condenar precipitando-se eles mesmos naquele abismo eterno de solidão que é o inferno. Por isso, eis que ressoam de novo para eles, como para todos nós, as palavras veementes de Abraão: «Têm Moisés e o Profetas; que os ouçam!» (Lc 16, 29). Esta escuta preparar-nos-á da melhor maneira para festejar a vitória definitiva sobre o pecado e a morte conquistada pelo Esposo já ressuscitado, que deseja purificar a sua prometida Esposa, na expectativa da sua vinda. 

 

Não percamos este tempo de Quaresma favorável à conversão! Pedimo-lo pela intercessão materna da Virgem Maria, a primeira que, diante da grandeza da misericórdia divina que Lhe foi concedida gratuitamente, reconheceu a sua pequenez (cf. Lc 1, 48), confessando-Se a humilde serva do Senhor (cf. Lc 1, 38).

 (Fonte: http://www.arquidiocesebh.org.br/site/noticias.php?id_noticia=12261)

 ________________________________________________________________________________________

Razão de Nossa Esperança

 

Nestes tempos enlameados de todos os lados, quando os direitos humanos parecem estar sendo conspurcados como jamais… em nome da ganância, do lucro, mata-se água, terra, gente. Envenena-se a comida e enche-se de substâncias tóxicas as águas dos rios e mesmo as subterrâneas e os mares, que também estão cheios de lixo. Indígenas estão sem seu chão (ah, mas isso já faz 500 anos!). Imigrantes - sobretudo haitianos e bolivianos - voltam a fazer trabalho escravo no Brasil. Não há lugar para eles. Tampouco há lugar para tantos, migrantes ou não, marginalizados dos grandes centros urbanos. Poluição; falta de educação; desemprego; sucateamento da saúde; corrupção; violência e criminalidade; desigualdade social; déficit habitacional: tantos são os males sociais que abafam nossa esperança. O Congresso Nacional? melhor me calar! Pois, nestes tempos, em que parece que a esperança volta vez por outra travestida de “mega sena” e que a ideia de felicidade se esconde tantas vezes simbolizada em um velhinho de barba branca, vestido de vermelho, camuflando todo o consumismo, como que a dizer: Natal é comprar e comprar (não, aqui não se trata de adquirir o necessário, afinal, a necessidade também pode ser produzida. Mesmo sem grana “necessito”, por exemplo, do último modelo de iphone). Nestes tempos... Ah!  Melhor é recordarmos a singeleza de uma história, plena de ternura, que inverte todos os “valores” nos quais a humanidade tem colocado suas esperanças:

 

Fazia frio, certamente. Mas os corações daqueles dois estavam aquecidos pela confiança de quem sabe em quem acreditou. Verdade que “não havia lugar para eles” naquela cidade. Mas havia lugar para Deus em sua casa, em suas vidas, no corpo daquela jovem. Daí, toda a esperança tem sentido. Porque Ele está presente. É por isso que pode ser chamado de Emanuel.

 

Como dar à luz Aquele que é a própria Luz do mundo? Como trazer à vida a origem da própria Vida, Aquele que é a Vida? A jovem Mãe guardava tantas coisas em seu coração... Tudo difícil de entender, por isso o melhor era se entregar completamente: mergulhar no Amor, que é Deus.

 

Quais os pensamentos, quais os sentimentos dos jovens pais na preparação daquele natal? Precisavam responder a necessidades básicas e a primeira delas era encontrar um lugar. E depois, prepará-lo, porque a vida merece cuidado. Toda a vida! E naquele extremo despojamento de tudo o casal só podia esperar em Deus. E Deus “veio habitar entre nós” e desde então podemos dizer, com toda verdade: “Ele está no meio de nós”.

 

Mais belo encontro: céu e terra se tocando, se presenteando… A humanidade se entrega a Deus em Maria, em José, na humilde contemplação dos pastores, na adoração tão buscada dos sábios do Oriente. Mais que ouro, incenso e mirra, cada pessoa é um presente único e inestimável de Deus ao mundo e de si mesma aos outros e a Deus. Este, por sua vez, ao se dar à humanidade como um bebezinho, faz-se o mais frágil e necessitado de cuidado de todos os seres vivos, mas nele recebemos uma incomparável dignidade. Em Jesus, Deus se faz humano. Mais tarde, quando ressuscita, leva aos céus nossa humanidade consigo. É portanto nele, somente nele, que divino e o humano se abraçam e isso, isso sim, deve nos encher de esperança e dar novo sentido aos nossos dias.

 

Nossa sociedade, nossas casas, nossa vida estão cheias demais de tantas coisas que seguem sem espaço para Jesus no Natal (para o Papai Noel e o que ele representa, até que há muitos locais…). Quando nasceu, Jesus precisou se abrigar entre animais, fora da cidade, porque não havia lugar para ele. Hoje, como há dois mil anos, segue não havendo lugar. É por isso que continua sendo atual o anúncio dos anjos aos pastores, naquela noite santa, em Belém: “Não temais! Eis que eu vos anuncio uma grande alegria, que será para todo o povo: Nasceu-vos hoje um Salvador, que é o Cristo-Senhor.” Certamente temos razão para nossa esperança!

 

 

Tânia Jordão

Professora

Membro da equipe executiva do

Observatório da Evangelização da Arquidiocese de Belo Horizonte

______________________________________________________________________________________________

O Ano da Vida Consagrada 

 

Por Pe. Vinícius Augusto Ribeiro Teixeira, C.M.

(Pároco na paróquia São José, forania São José (Calafate) / RENSE)

 

Estamos em plena vivência do Ano da Vida Consagrada (VC), convocado pelo Papa Francisco para o período de 30 de novembro de 2014 a 2 de fevereiro de 2016. Como sucessor de Pedro, mas sobretudo como homem consagrado, Francisco convida seus irmãos e irmãs de vocação a “dar graças ao Pai, que nos chamou para seguir Jesus na plena adesão a seu Evangelho e no serviço da Igreja e que derramou em nossos corações o Espírito Santo que nos dá alegria e nos faz dar testemunho ao mundo inteiro de seu amor e de sua misericórdia”. A VC, esta milenar forma de vida cristã, define-se substancialmente por sua radical identificação com Cristo, fundamento de sua decisiva orientação para o mistério de Deus (mística), da fraternidade que reúne e fortalece seus membros (comunidade) e de seu compromisso com o Reino, concretizado em diferentes modos de presença e atuação na Igreja e no mundo (missão).     

 

Através de sua Carta Apostólica, o Papa indica os objetivos deste Ano: 1. Olhar com gratidão o passado, reconhecendo admirados a ação criativa do Espírito na história dos Institutos de VC e no desenvolvimento de seus respectivos carismas, reafirmando a confiança no amor providencial do Senhor e verificando eventuais falhas e incoerências na correspondência ao seu chamado. 2. Viver com paixão o presente, centrando-se no coração pulsante da VC: a vida e a missão de Jesus Cristo, tal como o Evangelho no-lo propõe e os fundadores o contemplaram, a fim de que entremos na corrente de sua paixão pelo Pai e de sua compaixão pelos irmãos, firmando-nos em uma entrega generosa e abnegada, impulso de verdadeira liberdade. 3. Abraçar o futuro com esperança, para que, à inevitável diminuição numérica e à perda de visibilidade social da VC, corresponda uma nova primavera de fidelidade criativa à sua vocação específica, fazendo-nos sensíveis e solidários às necessidades e apelos que mais interpelam a missão da Igreja hoje.

 

As expectativas do Papa Francisco para o Ano da VC sintetizam e exprimem nossas buscas e anseios mais sinceros: 1. Felicidade experimentada e demonstrada na vivência íntegra e comprometida da vocação, de modo a “transparecer a alegria e a beleza de viver o Evangelho e seguir a Cristo”. 2. Profecia capaz de “despertar o mundo”para “a lógica evangélica do dom, da fraternidade, do acolhimento da diversidade, do amor recíproco”, colocando-nos em atitude de discernimento da voz de Deus nos acontecimentos da história. 3. Comunhão fraterna, “que sempre se abre ao encontro, ao diálogo, à escuta, à ajuda mútua, e nos preserva da doença da autorreferencialidade”, habilitando-nos para promover a “mística de viver juntos” na Igreja e na sociedade. 4. Sair de si mesmos para ir às periferias existenciais, onde se acham “pessoas que perderam toda a esperança, famílias em dificuldade, crianças abandonadas, jovens a quem está vedado qualquer futuro, doentes e idosos abandonados, ricos saciados de bens mas com o vazio no coração, homens e mulheres à procura do sentido da vida, sedentos do divino…”. 5. Interrogar-se sobre o que Deus e a humanidade pedem à VC, de modo que os Institutos, contemplativos ou apostólicos, avaliem a qualidade de “sua presença na vida da Igreja e seu modo de responder às incessantes e novas solicitações que se levantam ao nosso redor, ao clamor dos pobres”.

 

Por fim, o Papa Francisco abre horizontes de revitalização da VC, envolvendo toda a Igreja neste Ano que deve ser “um tempo de Deus, rico de graças e transformação”. Para isso, convoca os leigos(as) a prosseguirem na partilha dos carismas que dinamizam a VC; convida todos os cristãos a louvarem o Senhor por este dom, recordando o legado de santidade e caridade de fundadores(as) da têmpera de São Francisco de Assis, Santo Inácio de Loyola, Santa Teresa de Ávila, São Vicente de Paulo, Beata Teresa de Calcutá, etc; estimula a interação com pessoas consagradas de outras Igrejas e tradições, especialmente no que tange a uma maior colaboração no serviço à vida humana; e, por fim, solicita aos bispos acolhida, acompanhamento e incentivo à VC, “de modo a fazer resplandecer sua beleza e santidade na Igreja”.

 

A Arquidiocese de Belo Horizonte e, nela, a Região Episcopal Nossa Senhora da Esperança têm motivos fortes para celebrar este Ano. Como não bendizer o Senhor pela fecundidade de tantas pessoas consagradas que já passaram por nossas Comunidades, testemunhando a alegria de pertencer a Cristo e servir aos irmãos com o ardor de seu zelo e a sabedoria de seu Espírito. Seria suficiente trazer à memória as figuras primaveris do Bem-aventurado Padre Eustáquio e da Irmã Benigna. Também entre nós, seja o Ano da VC tempo de confiar ao maternal auxílio da Virgem Maria, “modelo insuperável de seguimento no amor a Deus e no serviço do próximo”, a vida e a missão de todas as pessoas consagradas, chamadas a ser memória viva do Evangelho, profecia do Reino e sinal de esperança, prosseguindo fieis e felizes neste caminho de autêntica liberdade e despertando nos jovens o desejo de palmilhar as mesmas sendas de fé perseverante e amor incansável.